Goal-based Investing – Uma mudança de paradigma

Goal-based Investing – Uma mudança de paradigma

Goal-based Investing – Uma mudança de paradigma

Definitivamente o mercado de planejamento financeiro pessoal e familiar está mudando, eu até diria que, em termos estratégicos, drasticamente.

Atrevo-me a dizer que o papel do alocador de recursos financeiros, desde o gerente de varejo de banco chegando até o officer das famílias mais abastadas, está sendo revisto em relação às diretrizes de suas orientações financeiras.

Tentarei explicar ao longo desta micro série em dois artigos, escritos em uma tarde fria e chuvosa de sábado, os motivos que me levaram a forte conclusão que encabeça nosso texto.

Bom, primeiramente gostaria de falar um pouco sobre a mudança de diretriz estratégica que alocadores passaram e, muitos ainda estão passando, em termos de alocação de produtos financeiros.

Em um passado não tão distante assim, alocadores e investidores estavam inteiramente voltados ao modelo de orientação financeira baseada fortemente na distribuição do que consideravam os melhores produtos financeiros.

O que ocorreu nas últimas décadas, a começar nos Estados Unidos em meados de 2002, foi uma quebra explícita de paradigma. Digamos que, nesse passado recente, a maioria dos alocadores não se importavam muito com as aspirações ou desejos de seus clientes. No fundo, estavam mais interessados em distribuir produtos financeiros a fim de indicar este ou aquele ativo por conta da melhor performance e/ou menor custo ao cliente e que ao mesmo tempo oferecesse ao alocador a melhor comissão ou rebate, ou qualquer outro tipo de remuneração. Tudo bem até então, uma espécie de jogo do “ganha-ganha”.

A briga, no final das contas, se limitava em observar se a alocação do cliente por meio de gráficos. Normalmente um gráfico do tipo pizza mostrando o peso de cada ativo na carteira e outro gráfico no formato linha para análise histórica de rentabilidade. A conclusão mais importante dessa abordagem era saber se o portfólio do cliente estava ou não superando um benchmark. Aqui no Brasil a máxima era saber se alocação bateu ou não o CDI.

Acontece que o jogo virou drasticamente. Saber se o portfólio superou determinado benchmark se tornou pouco para o cliente final, para não dizer no mínimo, vazio de sentido. Um número maior que outro número por si só, no fim do dia, não se converte automaticamente, com o perdão do jargão, no “leite das crianças”.

O público-alvo dos alocadores, ou seja, quem demanda por serviços financeiros se tornou muito mais exigente e está cada vez mais em busca respostas mais tangíveis. Em outras palavras, mais aderentes a sua realidade como médico, músico, publicitário e não como um financista. Esta não é sua realidade!

Resumindo, não adianta em nada falar de benchmark, performance, VaR, backtesting, trend following, etc a um dentista. O que ele quer saber no fim das contas é se haverá fundos suficientes para ele se aposentar daqui a vinte ou vinte e cinco anos e quanto deverá ir poupando ao longo desta trajetória para atingir essa meta.

Estamos vivendo a era do Goal-based Investing (GBI) ou como costumo definir: orientação financeira baseada em objetivos.

Este artigo pode parecer um tanto quanto longo, por isso será dividido em duas publicações, mesmo assim peço a você leitor mais paciência, é um assunto denso que exige um pouco do nosso tempo para que seja feita uma explicação à altura.

Entendendo a mudança de ambiente

A terrível crise financeira de 2008, a maior de nossa história recente, foi para a maioria dos clientes e investidores, mais do que nunca, diferente. Havia um sentimento de que não foi apenas uma crise cíclica.

Mais triste ainda foi para aqueles clientes mais velhos, mais próximos da aposentadoria em 2008, este grupo se deu conta de que as expectativas de retornos traçadas, baseadas nos dez últimos anos, agora pareciam irreais ou impossíveis em um futuro próximo, ou seja, falharam no objetivo de se aposentar no curto prazo.

Agora, imagine você nessa situação? Espero que realmente não tenha sentido isso na pele.

Aqueles investimentos que supostamente eram considerados líquidos, em uma situação extrema como a que estava ocorrendo, não tinham tanta liquidez assim e aquelas alocações diversificadas, com o risco mitigado, pareciam alocações arriscadas que obtinham desempenho muito abaixo do esperado.

Esta distorção causada em 2008 não foi o único fator que indicava a necessidade de uma mudança na concepção de planejamento financeiro tal qual se concebia. As maiores autoridades acadêmicas em finanças davam sinais de que as coisas estavam realmente mudando. Um exemplo clássico disso foi a publicação de um artigo em 2010 pelo Nobel de economia Harry Markowitz, pai da teoria moderna do portfólio, sobre o processo de contas mentais, que nada mais é que o mesmo processo de orientação financeira baseada em objetivos.

 

Este artigo do Markowitz foi um marco importantíssimo do ponto de vista teórico, não só pela nova abordagem de orientação financeira, como por apresentar uma definição diferente para aquilo que se entendia por risco. De acordo com o autor, risco não deve ser definido de forma puramente matemática, como um desvio padrão do retorno, mas também, como a probabilidade ou não de se alcançar objetivos, que é aquilo que muitas pessoas intuitivamente definem como risco.

Esta mudança no ambiente econômico e na teoria financeira definitivamente abriu uma lacuna no processo de orientação financeira na prática, criou-se uma oportunidade para aqueles que acreditam no foco dos objetivos dos clientes como a melhor maneira de lidar com essa lacuna. De certa maneira, formalizava-se uma vertente mais moderna, com foco mais comportamental que a teoria tradicional de alocação até então dominante.

Ufa, muita informação, não é mesmo?

Estou visando uma leitura mais fluida, aprazível e pensando no seu tempo acima de tudo. No nosso próximo texto, iremos aprofundar o GBI do ponto de vista da arquitetura e entenderemos melhor este processo de alocação.

Até lá!

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